Oque eu aprendi com uma professora de artes.
Primeiro de tudo, o conteúdo desse post originalmente seria o roteiro de um vídeo no Youtube que eu pretendia exibir em sala de aula com o projetor de uma certa pessoa emprestado. Até cheguei a gravar, mas talvez pelas minhas prioridades (não que eu tivesse alguma definida), ou bem, não achar que estava ficando bom, acabei não cumprindo com o que eu me propus a fazer. Oque não é nenhuma novidade. A verdade é que é um texto dedicado à uma mulher que mantém o nível de dedicação em praticamente tudo BEM MAIS ACIMA do que eu em qualquer quesito, e eu que lute pra lidar com isso.
O segundo ponto é que nenhum dos envolvidos COM EXCEÇÃO DA AMANDA, nos eventos que eu vou relatar nesse texto foram consultados, visto que minha relação com eles atualmente é incerta. Tenho respeito e guardo carinho por todos (menos a moça da lanchonete, que só me viu abrir a boca pra falar que era no débito), mas por não saber oque eles achariam de serem mencionados aqui, vou citá-los somente pela inicial. Dito isso, oque vem a seguir é um texto feito no Google Docs cuja última edição foi em 25/11/2025.
Ok, aparentemente foi no dia 10 de fevereiro de 2025 que teve o primeiro dia de aula. Foi o dia que eu conheci a Amanda. Eu sequer tinha visto ela antes, porque ela tava afastada da escola... mas nesse ano ela tinha voltado! Ela chegou na sala, escreveu o nome dela no quadro, se apresentou, falou um pouco da matéria dela... e, também pediu pros que já a conheciam não a chamarem pelo nome morto. E ali, mesmo eu nunca tendo falado com ela, eu fiquei feliz que ela estivesse ali. Porque ela era como eu, diferente da norma. Ela era trans.
E diferente do que eu tinha feito todos esses anos, que era me esconder e manter meus conflitos de identidade só pra mim, ela tava ali, se expondo. Abrindo o peito pra aqueles adolescentes que, sinceramente, não tinha como saber se a receberiam de braços abertos ou não. Eu nunca tinha trocado uma palavra sequer com ela, mas ela ganhou todo o meu respeito ali. Enfim, nenhum conteúdo foi passado nessa aula, apenas uma apresentação.
A primeira aula dela eu acho foi no dia 17 de fevereiro, e foi sobre a importância da arte. E, a partir dali, nós veríamos toda segunda-feira aquela mulher carregar 45 bolsas com o propósito de trazer seus bens mais valiosos: um projetor portátil e um notebook. A Amanda não passava nada pra escrever, nem sequer uma "matéria" que você espera numa grade curricular de artes ou algo assim. Suas aulas se baseavam apenas em slides sobre um determinado tema que nunca era desinteressante, e ela explicava muito bem. Eu lembro de sempre ficar com medo quando ela desviava um pouco do foco e comentava sobre outra coisa, porque as aulas têm de 45 a 50 minutos e eu queria ouvir tudo que ela tinha pra falar, então eu ficava… "BORA, MUIÉ, ACELERA QUE EU SEI QUE TEM MAIS."
No dia 24 de fevereiro, ela deu aula sobre quadrinhos. E eu acho que foi a aula mais divertida do ano todo. Ela contou sobre a origem do Superman, do Batman… e muitos problemas sociais que influenciaram o enredo dos quadrinhos na época! Foi muito divertido. Mas, apesar daquela aula ter sido foda, não foi ela em si que me marcou e sim o que aconteceu depois.
No começo desse ano, apesar de ter o carisma e as habilidades sociais de uma PORTA, eu conheci algumas pessoas especiais que se tornaram praticamente meu refúgio. E, por coincidência, uma delas era a pessoa mais INCONVENIENTE, CARA DE PAU, BOCA DE SACOLA que já me defendeu e me apoiou várias vezes mesmo que a gente não estivesse se dando bem. Essa pessoa era a K.
Ninguém ali além dos meus amigos sabia que eu era trans. Mas, por algum motivo, depois da aula… a Amanda veio na minha mesa. E QUEM DIRIA, a K tava ali do lado. A Amanda não teve precedentes: apenas olhou nos meus olhos e perguntou se eu gostaria de ser chamado por outro nome.
E por mais que a sensação de leveza parecesse simplesmente arrebatar o meu corpo com aquela pergunta tão simples, eu travei. Não por ter medo de ser enxergado por quem eu realmente era, mas sim de acabar pagando por isso. Ninguém sabia. Minha família não sabia. Meus colegas não sabiam. E, por eventos passados, eu já sabia que se expor seria consequentemente se expor ao olhar e julgamento dos outros. Seria arriscar minha imagem, minha integridade física e a minha saúde mental (não que seja lá muito boa). E eu tava pronto?
Eu não sei. Eu só pensei: "Eu posso dizer?" "Eu posso aceitar isso?" "Eu tenho mesmo esse direito?" E, no fim, eu aceitei. Foi a melhor escolha que eu pude fazer.
Pelas próximas aulas, a Amanda me chamava pelo meu nome na hora de fazer chamada. Ela era a única que fazia isso até então. Provável que ninguém além da K naquela sala entendia, mas eu não me importava. Parecia que finalmente alguém além do meu ciclo social me enxergava. Antes do turno da noite começar, ela geralmente ficava na V (V na verdade é o nome de uma moça de uma lanchonete que fica do lado da escola… mas a gente associa diretamente a ela, então a gente não vai "comprar lanche na lanchonete", e sim "comprar lanche na V"). E quando eu ia pra lá com a D, que é meu outro refúgio, a gente conversava.
A Amanda me aconselhou sobre hormônios, deu um norte de como retificar meu nome nos documentos quando eu tivesse a oportunidade e até de como pedir pros outros professores me chamarem por ele também. Aos poucos, ela foi deixando de ser “a professora de artes da minha escola” e passou a ser… uma amiga. Uma mentora, uma guia. Ou “Sensei”, que é como eu gosto de chamar ela. Amanda sensei.
Bem, consequentemente, depois de tanto apoio da Amanda e dos meus amigos… eu me dispus a ir atrás de me impor um pouco. Perguntei de professor em professor. Alguns foram tranquilos e riscaram meu nome morto da chamada na hora, enquanto outros só seguiam o que a coordenação mandava, ou seja: “nem pensar”.
Ter que dar a cara a tapa pra quem não se dispõe a entender o seu lado pode ser bem frustrante, e foi o motivo de muitos rabiscos bruscos sem forma existirem no meu caderno. Mas no fim… valeu a pena. Meus amigos também me ajudaram pacas nesse processo. E, bom… depois de um tempo, não só eles como a minha sala passou a me apoiar também. Meus colegas me defendiam quando algum professor dizia meu nome errado, e eu ficava… "Gente??? Isso tá REALMENTE acontecendo???"
Eu tava sendo enxergado por quem eu realmente era, sem ter que gritar pra isso. Tudo graças a ela. Mas ainda não era oficial, e tanto a coordenadora quanto a vice-diretora estavam, bem… incomodadas. Elas perguntaram se eu não poderia chamar a minha mãe pra tornar aquilo oficial. E eu não sabia se tava pronto pra contar. Porque por mais que ela tenha mudado muito nesses últimos anos… a minha mãe ainda não era tão mente aberta quanto à transgeneridade como é hoje. Mas eu tomei coragem. Escrevi, planejei… descartei, escrevi de novo… e desisti.
Mais uma vez, me veio as mesmas perguntas: Eu tô preparado pra isso? Para as perguntas desconfortáveis? Para um possível olhar de decepção?
A minha relação com a minha mãe tava tão boa… e eu tava com muito medo de estragar isso se ela me enxergasse completamente. Mas minhas dúvidas e meus medos se foram no dia 24 de maio. Num domingo. Dia de reunião de pais. Eu dei uma carta pra minha mãe antes da gente ir na escola, porque… bem, eu queria que ela soubesse por mim e não por outra pessoa.
E… ela simplesmente aceitou. Dava pra ver que ela tava demorando pra processar, mas ela tinha aceitado. Minha mãe tinha aceitado quem eu era. E no mesmo dia, ela foi pra escola e assinou o documento que autorizava mudarem meu nome na chamada. Eu senti que tava sonhando. Era bom demais pra ser verdade.
E tudo aquilo porque… a Amanda me perguntou se eu queria ser chamado pelo meu nome na chamada. Depois daí, foi só flores. Meus amigos me apoiavam, meus colegas me apoiavam, a gente saía e se encontrava junto de vez em quando… e a Amanda? Bem, ela continuava sendo a Amanda! Só que agora ela gostava de deixar bem mais claro que eu era o favorito, pelo menos uma vez na aula eu era mencionado ou alguma piadinha era feita comigo.
No dia 24 de setembro foi o piquenique do aniversário da D (Cara, saudades desse dia). Eu pude conhecer ela melhor. Acho que eu nunca tinha conversado com uma pessoa tão imprevisível como ela. NÃO TEM COMO SABER O QUE ELA VAI FALAR. Ela é cômica, inteligente, firme… e acima de tudo, forte. Mais forte que qualquer estrutura feita pelo ser humano. (E eu tirei a prova nesse dia quando ela saiu correndo atrás de mim pra me dar um abraço e me derrubou no chão. Fala sério, como pode uma careca nerd de quadrinhos ser tão assustadora?)
No dia 6 de outubro, numa aula cujo tema era videogame, um dos meus colegas errou o pronome dela duas vezes, no meio de todo mundo. Ela corrigiu ele, mas o silêncio da sala me encheu de aflição. Eu não gostava nem um pouco da ideia de desgostarem dela. Fiquei com raiva de mim mesmo por não ter dito nada.
No dia 10 de novembro, devíamos apresentar um trabalho em grupo, seria o projeto de um jogo. Mas… a Amanda não deu aula pra gente, porque alguém fez duas denúncias anônimas falsas, com o único intuito de prejudicá-la. Ela ficou mal. E eu fiquei mal também. (Olha, teve tanta merda nesse ano que só ela pra ainda assim ter transformado no melhor ano escolar que eu já tive)
No dia 17 de novembro, eu recebi uma "ameaça" no meu WhatsApp dizendo que eu tinha que comparecer na aula dela. Respondi que só tinha ido pela ameaça, mas… sinceramente, segunda-feira é um dia infaltável pra mim. Perder a aula da Amanda é um CRIME, e eu iria de qualquer jeito.
Naquele dia não teve slide, nem matéria, nem trabalho. Só um discurso de fim de ano. Um discurso que… fez a frequência cardíaca do meu coração quebrar qualquer barreira do espaço-tempo, porque foi como se um feixe de luz me atravessasse. A Amanda falou que o que a motivava a ir na escola era ela ter alguém pra proteger, e essa pessoa era eu.
E, bem… agora que o ano tá acabando, eu só tenho que agradecer a ela. Muito obrigado, Amanda. Se eu sou seu "protegido", como a A (esposa dela) diz, quero que saiba que você é minha guardiã. Muito obrigado por eu ter conhecido você. Obrigado por você ter ousado existir e por me ensinar a existir também.
Talvez você não saiba que eu nunca sequer cogitei ser professor pelo pavor de falar na frente de uma multidão, mas te ver fazendo o que você faz já me fez querer fazer licenciatura em artes, só pra ter o gosto de deixar o dia de uns 20 calango em desenvolvimento mais interessante.
Você me ensinou muito mais do que "a importância da arte", ou como tem uma nota morta na musiquinha do Super Mario que ninguém percebeu… você me ensinou a importância de ser eu mesmo. Me ensinou a importância de viver. E se tinha alguém que me motivava a ir pra escola toda segunda-feira, tendo certeza de que eu teria a melhor aula da minha semana, num lugar seguro, essa pessoa é você.